CCJF sedia evento da ONU no Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto

Publicado em 30/01/2020

A preocupação com o aumento dos crimes de ódio, da intolerância religiosa e da violência motivada por preconceito foi a tônica da maioria dos discursos proferidos na solenidade realizada no Centro Cultural Justiça Federal (CCJF), no dia 27 de janeiro, Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto. A data marcou os 75 anos da liberação do campo de extermínio nazista de Auschwitz-Birkenau, na Polônia, pelas tropas aliadas, e foi lembrada em uma concorrida cerimônia que teve lugar na antiga sala de sessões do Supremo Tribunal Federal. A Corte funcionou no prédio do CCJF até a transferência da capital federal para Brasília, em 1960.

No evento, o desembargador federal Messod Azulay, vice-presidente do Tribunal Regional Federal – 2ª Região (TRF2), ao qual o CCJF é vinculado, representou o presidente Reis Friede. Compuseram a mesa o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, o diretor-geral do CCJF, desembargador federal Ivan Athié, o cônsul-geral dos EUA, Scott Hamilton, o vice-cônsul-geral da Alemanha, Johannes Bloos, o cônsul honorário de Israel, Osias Wurman, a diretora do Centro de Informação das Nações Unidas para o Brasil (Unic Rio), Kimberly Mann, o presidente da Federação Israelita do Rio de Janeiro (Fierj), Arnon Velmovitsky, e o presidente da Associação dos Sobreviventes do Holocausto do Rio de Janeiro, Freddy Glatt.

Também prestigiaram a homenagem, dentre outras autoridades civis e eclesiásticas, o desembargador federal André Fontes e o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Luciano Bandeira. A mestre de cerimônias foi a diretora do Unic Rio, instituição com a qual o CCJF realiza a exposição “Alguns eram vizinhos”.

 

A partir da esquerda: Scott Hamilton, Ivan Athié, Kimberly Mann, Wilson Witzel, Arnon Velmovitsky, Johannes Bloos, Osias Wurman e Freddy Glatt

 

Educação contra o preconceito

A mostra fotográfica pode ser visitada no CCJF (Avenida Rio Branco, 241, Cinelândia) até 20 de fevereiro e conta com a parceria do Museu Americano em Memória do Holocausto, sediado em Washington, D.C. Seu objetivo é promover a reflexão sobre o papel desempenhado por pessoas comuns, durante a Segunda Guerra, que apoiaram ou combateram de alguma forma as perseguições do regime nazista.

 

 

A solenidade foi aberta com a apresentação, em vídeo, de uma mensagem gravada pelo secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, que manifestou angústia com o crescimento de grupos neonazistas e supremacistas brancos, assim como com a disseminação, principalmente pelas redes sociais, de ideias negacionistas do Holocausto e a culpa de seus autores. Para o chefe da ONU, a luta contra esse pensamento deve passar pela educação dos jovens: “Hoje e todos os dias trazemos à memória as vítimas do Holocausto ao buscarmos a verdade, a memória e a educação, e ao consolidarmos a paz e a justiça em todo o mundo”, afirmou.

Primeiro a falar do púlpito, Wilson Witzel destacou o aumento do antissemitismo no mundo e fez um paralelo entre ataques terroristas em Israel e a atuação do crime organizado no estado fluminense: “A criminalidade se comporta como os terroristas. Agem contra inocentes e oprimem a população. A Alemanha foi derrotada e o mundo venceu o Nazismo, nós vamos vencer o crime organizado e libertar as comunidades do Rio de Janeiro desta praga”, declarou.

Crítica à omissão e ao negacionismo

“O que mais me preocupa não é o grito dos maus e sim o silêncio dos bons”. A frase do ativista dos direitos humanos e líder religioso Martin Luther King foi citada pelo diretor-geral do CCJF, em referência à responsabilidade de pessoas e instituições que se omitem diante da violência motivada por toda forma de intolerância e discriminação. Ivan Athié, que discursou logo após o governador, disse que essa atitude conivente fortaleceu o regime nazista no passado e hoje é obstáculo à luta contra o ódio e o preconceito. Ele concluiu sua fala lembrando que a contestação do extermínio de judeus, homossexuais, pessoas com deficiências físicas e mentais e outras minorias e inimigos do Nazismo é “absurda e falaciosa”, mas tem defensores até mesmo no meio acadêmico.

Na sequência, também discursaram Scott Hamilton, Johannes Bloos, Osias Wurman e Arnon Velmovitsky. A cerimônia incluiu ainda a apresentação de uma mensagem gravada em vídeo da diretora-geral da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), Audrey Azoulay, a apresentação das violinistas Isabel e Raquel Belém e a recitação de duas orações pelo hazan Andre Nudelman.

A última fala coube a Freddy Glatt, que perdeu vários familiares assassinados no campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau: “Com profunda emoção, lembro os milhões de mortos que nunca terão uma sepultura digna, entre os quais meus dois irmãos, meus avós, tios, tias, meus colegas da escola. Lembro os carrascos e seus ajudantes, assim como aqueles que assistiram em silêncio sem tomar uma atitude”, disse o presidente da Associação dos Sobreviventes do Holocauto do Rio de Janeiro, que se mudou para o Brasil em 1947 e hoje tem 92 anos de idade.

 

Freddy Glatt. Foto: UNIC Rio/Joana Berwanger